Crise ética no Distrito Federal pode levar Justiça a decidir eleição

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Menos de um ano depois de mergulhar na maior crise ética de sua história, e mais uma vez sem perspectiva de corrigir seu quadro de representação desde que adquiriu autonomia, o Distrito Federal segue com uma situação política instável e defronta-se com a possibilidade de as eleições de outubro serem decididas pela Justiça, não pelas urnas. Líder nas pesquisas de intenção de voto, Joaquim Roriz (PSC) teve sua candidatura impugnada pelo Tribunal Regional Eleitoral do Distrito Federal, com base na Lei da Ficha Limpa. Na quinta-feira, dia 19, o caso será analisado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e poderá chegar ao Supremo Tribunal Federal (STF).

Do outro lado, uma chapa adversária reúne dois partidos que, até um passado recente, eram adversários históricos e ferozes da política em Brasília: PT e PMDB. Para agravar o cenário, o candidato a governador dessa chapa, Agnelo Queiroz, é neopetista, recém chegado do PCdoB. E o candidato a vice, Tadeu Filippelli (PMDB), foi aliado de Roriz, ex-secretário de Obras do Distrito Federal, e do ex-governador José Roberto Arruda, protagonista do último escândalo de corrupção da política do Distrito Federal.

Rompeu com Roriz para manter o PMDB no governo local e afastou-se de Arruda quando estourou o escândalo do mensalão do DEM.

Com uma base eleitoral concentrada nas classes C, D e E, Roriz segue fazendo campanha enquanto sua situação política não se define. Durante o primeiro debate com os candidatos realizado na noite de quinta-feira, na TV Bandeirantes, declarou que um governador deve agir como um pai de família que dá exemplo aos filhos: “Se um pai não der o exemplo e deixar margens para certo tipo de coisas, ele não poderá cobrar dos seus filhos. Um governador deve dar o exemplo e não aceitar propinas”.

A candidatura de Roriz foi impugnada por ele ter renunciado, em 2006, ao mandato de senador. Ele foi flagrado, pela Polícia Civil de Brasília, em conversas telefônicas negociando a partilha de um cheque de R$ 2,2 milhões que pertencia ao empresário Nenê Constantino, dono da Gol. A operação, batizada de Aquarela, investigava um esquema de corrupção envolvendo o Banco de Brasília (BRB).

Presidente do PSC-DF, Valério Neves está otimista com a absolvição de seu candidato que já foi um dos maiores caciques do PMDB do Centro-Oeste. “Os deputado Paulo Rocha (PT-PA) e Jader Barbalho (PMDB-PA) renunciaram aos mandatos para escapar de cassações e as suas candidaturas foram autorizadas. Por que impugnar apenas a do Roriz”? questiona Valério Neves. Na tese da defesa consta também a regra de que alterações na legislação eleitoral só podem ser feitas com um ano de antecedência ao pleito. A Lei da Ficha Limpa foi aprovada pelo Congresso Nacional neste ano.

A coligação PT-PMDB adotou a estratégia de não questionar a candidatura diretamente na Justiça Eleitoral. O temor é que haja um relaxamento da militância à espera da impugnação definitiva, o resultado positivo não se concretize e fique tarde demais para uma reação. A principal estratégia é reforçar no âmbito local a força da coligação nacional que reúne as duas legendas na chapa presidencial de Dilma Rousseff.

Além disso, veem um Roriz enfraquecido, se comparado com as disputas anteriores. Alegam que, tradicionalmente, ele inicia uma eleição para o governo com um índice de intenção de votos acima dos 70{7a3a68e1616b7aaba0d480ce0a8cac54774e7fddc429e25618f6fd9a5a093145}. Atualmente, segundo pesquisa Datafolha encomendada pela Rede Globo, Roriz aparece com 41{7a3a68e1616b7aaba0d480ce0a8cac54774e7fddc429e25618f6fd9a5a093145} das intenções de voto, contra 33{7a3a68e1616b7aaba0d480ce0a8cac54774e7fddc429e25618f6fd9a5a093145} de Agnelo Queiroz.

Essa desidratação não é atual, segundo aliados de Agnelo. Em 2002, Roriz teve que disputar o segundo turno contra o então candidato do PT, Geraldo Magela, embalado pela ‘onda vermelha’ que elegeu Luiz Inácio Lula da Silva como presidente. Em 2006, outra disputa difícil, dessa vez para o Senado, contra seu atual adversário, Agnelo Queiroz (então no PCdoB e recém saído do Ministério dos Esportes). Roriz venceu, mas com menor capital político.

Mesmo assim, Roriz ainda é um candidato difícil de ser superado. Ele retomou o eleitorado que havia migrado para Arruda em 2006. Jura que não tem qualquer envolvimento com o escândalo que levou o desafeto político à prisão por quase dois meses entre fevereiro e abril deste ano. “É claro que, como governador durante 14 anos, não há possibilidade de acontecer algo em Brasília sem que ele saiba. Desde julho de 2009, crescia o burburinho de que ‘algo grande contra o Arruda’ surgiria. E surgiu”, ironizou um interlocutor de Roriz.

Antes da crise do mensalão do DEM do Distrito Federal, Roriz dizia não pretender disputar um novo mandato – ele já governou Brasília quatro vezes. Afirmava que isso só aconteceria se fosse necessário “ensinar a esse menino (Arruda) como se faz política por aqui”. Hoje, ninguém duvida da vontade de Roriz em assumir um novo mandato. “Não é apenas uma vontade minha, é para satisfazer a vontade do povo, que me pede nas ruas que eu volte”, alegou, durante o debate da Band. “Ele é candidatíssimo”, acrescentou Rodrigo Rollemberg, candidato ao Senado pelo PSB.

Um político experiente que apoia Agnelo lembra que, sem Roriz na disputa, o cenário mudaria completamente. “Ele não transfere votos”, assegurou. Em 1994, seu candidato, Valmir Campelo (hoje ministro do Tribunal de Contas da União) perdeu para Cristovam Buarque (atualmente candidato ao Senado pelo PDT). Em 2006, a ex-vice governadora Maria de Lourdes Abadia (candidata ao Senado pelo PSDB) foi derrotada por Arruda. “O melhor plano B (substituição do Roriz) seria Jofran Frejat (PR), candidato a vice na chapa ao governo local”, acrescentou esse político. “Não existem alternativas, o candidato é Roriz”, insistiu um assessor do ex-governador demonstrando firmeza em fazer até o último recurso possível.