Troca de sócios e abertura de bancas movimentam o mercado jurídico

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Divergências sobre como gerenciar os negócios, a política de pagamentos de bônus, de remuneração e planos de carreira estão entre as principais motivações para a debandada de sócios de grandes e médios escritórios de advocacia nos últimos seis meses no país. Em São Paulo, há pelo menos cinco casos de sócios que abandonaram grandes bancas para fundar seus próprios escritórios.

O Tauil & Chequer Advogados, associado à banca norte-americana Mayer Brown, por exemplo, perdeu três sócios em setembro. Eduardo Soares, especialista em direito societário, Cristiano Chagas Monteiro de Melo, tributarista, e Laura Mendes Bumachar, do contencioso, saíram do escritório e abriram o Soares, Bumachar, Chagas, Barros Advogados.

Já o namoro entre o escritório Siqueira Castro e o Lunardelli Advocacia durou apenas um ano. No início deste mês, os advogados do Lunardelli, que foram atuar no Siqueira Castro no ano passado, decidiram “refundar” a antiga banca. O Xavier, Bernardes, Bragança Sociedade de Advogados também perdeu cinco sócios e 14 advogados que migraram para o Motta, Fernandes Rocha.

Em abril, sócios com mais de dez anos de casa deixaram o Felsberg Associados para fundar o Aidar SBZ Advogados. A separação foi negociada por mais de dois meses. O até então Braga & Marafon teve seu quadro societário alterado com a saída do sócio fundador Plínio Marafon. O escritório passou a se chamar Braga & Moreno. Marafon abriu o Marafon &Fragoso Consultores.

A preferência por uma estrutura menor e custos mais baixos foi decisiva para a saída de três sócios do Tauil & Chequer Advogados, que possui agora 11 sócios e 80 advogados. Na opinião dos dissidentes Eduardo Soares, Cristiano Chagas Monteiro de Melo e Laura Bumachar, não é necessário uma estrutura grandiosa se o serviço prestado tem a mesma qualidade. A nova banca conta com 586 metros quadrados, 30 profissionais, entre advogados e outros funcionários, dos quais sete são sócios.

No caso do Xavier, Bernardes, Bragança Sociedade de Advogados, as divergências foram motivadas pela forma de condução dos negócios, como afirma o advogado Alberto Bragança, do agora Xavier, Bragança Advogados. Com o conflito, Horácio Bernardes Neto, Maria Regina Mangabeira Albernaz Lynch, Roberto Liesegang, Cecilia Vidigal Monteiro de Barros e Denise de Sousa e Silva Alvarenga, acompanhados de outros 14 advogados, passam a integrar o Motta, Fernandes Rocha Advogados – que tem Luiz Cantidiano como sócio.

Segundo Alberto Bragança, com a saída dos sócios e a retirada de outros advogados mais jovens – que formaram uma pequena banca em São Paulo -, o número de advogados do escritório passa de 75 para 40. Para ele, o movimento nos escritórios tem levado as bancas a procurar novos caminhos. “Nós, por exemplo, contratamos uma consultoria americana para nos ajudar em um novo projeto de elaboração de plano de carreira e remunerações. A ideia é implantá-lo no início do ano que vem”, diz.

As diferenças gerenciais também levaram ao rompimento no Felsberg Associados. Advogados que agora integram o Aidar SBZ afirmam que quatro sócios deixaram o Felsberg, levando outros 70 profissionais e cerca de cem clientes. Pelo outro lado, a versão é de que o número de sócios seria três – pois um deles apesar do status dentro da banca não seria oficialmente sócio – e o de profissionais seria apenas 20. Já o número de clientes levados estaria bem longe dos cem.

Paulo Sigaud, sócio do Aidar SBZ Advogados, afirma que existia divergências sobre a administração do escritório. Para ele, de uma forma geral, o CEO do escritório deve ser um técnico e não um sócio. Segundo Sigaud, a nova banca tem preocupação com a motivação profissional e não apenas com a remuneração.

O Felsberg passou por três cisões em 41 anos de existência. O sócio fundador Thomas Felsberg afirma que, após cada um desses episódios, o escritório aumentou. “Essas saídas podem ser positivas tanto para o grupo que se retira, que de certa forma não estava satisfeito, quanto para quem fica e acredita no projeto do escritório.” Com a última baixa, Felsberg afirma que a banca deixou de atuar no contencioso de massa, que já não era o foco do escritório, e passou a reforçar mais as outras áreas.

A dificuldade em manter o atendimento personalizado aos clientes foi um dos motivos que levou o advogado Pedro Lunardelli e equipe a deixar o Siqueira Castro. “Decidimos voltar a oferecer o serviço boutique do Advocacia Lunardelli, no mercado há 12 anos.” Ele afirma ter retomado o formato anterior de 28 profissionais. “O mercado está mais propenso ao atendimento personalizado. Em uma grande banca, pelo volume de processos isso fica mais difícil.”

O sócio do Siqueira Castro, Carlos Fernando Siqueira Castro, diz que saídas de advogados são corriqueiras nas bancas. No caso de Pedro Lunardelli e equipe não seria uma cisão, pois foram apenas seis advogados, dos quais dois sócios. Um número pequeno, segundo ele, diante dos cerca de 50 advogados tributaristas da banca. O escritório possui mais de 1,5 mil funcionários, quase 600 advogados e 65 sócios.

Plínio Marafon, ao contrário da maioria dos casos, saiu do Braga & Marafon para reduzir o ritmo de trabalho. Agora, prestando apenas consultoria, ele afirma que trabalha de terça à quinta-feira e pensa na aposentadoria. Sócio há mais de 21 anos de Marafon, o advogado Waldir Luis Braga, afirma que a saída dele foi programada e César Moreno assumiu o seu lugar. Procurados pelo Valor, os advogados do Motta, Fernandes Rocha Advogados não retornaram até o fechamento da edição. O escritório Tauil & Chequer Advogados não deu retorno à reportagem